Quem frequenta as redes sociais da internet e participa de comunidades de dor crônica, já descobriu que muitas pessoas que sofrem com uma disfunção da ATM, passam por uma verdadeira via cruces: se consultam com muitos profissionais diferentes, fazem múltiplos tratamentos e, infelizmente, algumas terminam com sequelas devido a algum tratamento mais invasivo. Nesses casos, os paciente normalmente estão já descrentes e sem muitas esperanças de terem seus problemas resolvidos, ou pelo menos, a dor controlada. Mas o que esperar dos profissionais de saúde que trabalham com disfunção da ATM?
Disfunção da ATM é um tema polêmico e exatamente por este motivo é que as pessoas devem ter muito cuidado ao se submeter a um tratamento. O ponto fundamental é evitar iniciar qualquer tipo de tratamento sem que se saiba exatamente com que tipo de problema se está lidando.
Entretanto isso implica duas coisas: 1) investigação adequada da patologia por trás da disfunção e 2) dar preferência aos tratamentos menos invasivos e mais reversíveis.
Este útimo ponto faz parte das diretrizes das prinicpais organizações internacionais ligadas à ATM e dor crônica, como a AACP – American Academy of Craniofacial Pain, a AAPM- American Academy of Pain Management, dentre outras, justamente por causa dos inúmeros relatos de casos de pessoas tratadas com técnicas cirúrgicas ou ortodônticas que terminam por não dar certo e deixam o paciente em uma situação pior que a da dor inicial. Aqui mesmo no blog há muitos relatos de pessoas que sofreram com este tipo de situação, basta dar uma lida nos comentários dos tópicos sobre cirurgia.
A investigação adequada da patologia por trás da disfunção da ATM é, em especial, o que há de mais importante no sentido de se selecionar o melhor tratamento para cada caso, mas como conversar sobre isso com o(a) dentista?
Primeiro e mais importante, é necessário conhecer um pouco sobre o tema como um bom paciente informado deve fazer e, para isso, a maior ferramenta é justamente a informação que está disponível de diversas formas, inclusive na internet. Nesse ponto, deve-se ter cuidado com o tipo de informação que se lê, afinal na internet há de tudo, informações sérias e também informação sem validade científica. Mas é justamente essa avalanche de informação que permite ao paciente levantar todas as questões que achar pertinente para conversar com seu dentista e é aqui que entram as minhas sugestões:
- Após estudar o tema, anote tudo que lhe interessar para depois discutir com seu dentista;
- Anote também as suas dúvidas pois é fácil esquecê-las durante a conversa inicial;
- Não acredite imediatamente em nada do que você lê, mantenha sempre o “desconfiômetro” ligado mesmo que as coisas lhe pareçam lógicas e fizerem sentido;
- Anote os seus sintomas, assim como as dúvidas, é fácil deixar algum detalhe de fora na entrevista e isso poderá prejudicar a sua avaliação;
- Não esconda informações de seu dentista. Parece lógico, não é? Mas, as vezes, as pessoas omitem informações porque supõem que não é importante para o caso, principalmente coisas relativas à saúde geral (uma vez que estão no dentista e julgam, inconscientemente, que só informações da “boca” são necessárias)… Não faça isso! Conte e deixe que ele decida se a informação é útil ou não.
- Ao oferecer todas as informações sobre seu caso, você está estabelecendo uma relação de troca de informações, assim, aproveite para perguntar também.
- Pergunte sobre seu diagnóstico, procure entender detalhes de todo o seu quadro de saúde.
- Não se contente com diagnóstico superficial do tipo: “Você tem um deslocamento do disco” ou “Você tem um ‘desgaste’ do côndilo”. Estes não são diagnósticos propriamente ditos, senão descrições de danos estruturais do problema. É muito importante ir bem além disso e, nesses exemplos, seria descobrir os motivos que levaram o disco a se deslocar ou um côndilo a se desgastar. A investigação da causa do problema é extremamente importante para definir o tratamento e o prognóstico. Isso é o que se chama de investigação patológica.
- Exames de imagem e laboratoriais são muito importantes na investigação do problema. Desconfie de diagnóstico relâmpago sem suporte dos recursos tecnológicos de diagnóstico, pois tendem a ser superficial e aumentam o risco de passar algo despercebido.
- Por outro lado, fazer um monte de exames caros também não significa que está sendo feita uma boa avaliação do caso. Não se impressione por exames com nomes estranhos e de aspecto high tech, pode ser que sejam completamente desnecessários para o seu caso. O correto é uma avaliação com uso prudente e inteligente das tecnologias disponíveis. Isso implica um bom conhecimento por parte do profissional a respeito do que está sendo solicitado e você tem direito às explicações sobre o porquê de cada exame. Caso considere o número de exames excessivos, pergunte e questione o dentista sobre a necessidade de cada um.
- No retorno, ao levar os exames, verifique se seu dentista conhece realmente o tema, pergunte sobre o significado do resultado e escute as explicações. Se não se sentir seguro(a), informe que irá consultar ainda outras opiniões sobre o assunto para tomar a sua decisão.
- No caso de exames de imagem, peça para o dentista lhe explicar as imagens e os problemas encontrados, observe também se ele fica preso ao laudo ou se ele demonstra segurança nas explanações. Esse pode ser um indício do quanto de experiência e domínio ele(a) possui do assunto.
Tenha em mente que a área de saúde não é uma ciência exata e que cada profissional tem uma formação distinta, logo é normal que as opiniões variem. Ao ponderar todos esses fatores, considere que em todos os casos a maioria dos profissionais estarão se esforçando dentro de suas respectivas capacidades. Profissionais que se mantêm atualizados, que são seguros de seu conhecimento e do que são capazes de proporcionar em termos de tratamento, não costumam ficar constrangido nem incomodados quando estão diante de um paciente esclarecido e questionador. Estes profissionais entendem que ter dúvidas e buscar saná-las é, além de prudente, necessário para tomar decisões importantes quanto à propria saúde, bem como um pontapé inicial para estabelecer uma relação de confiança no qual ambas as partes só têm a ganhar: o dentista pelo reconhecimento e valorização do seu trabalho e o paciente por poder escolher de forma consciente e clara o melhor para a própria saúde.
Fique esperto!














Gostei muito dessas explicaçoes.Mas gostaria de saber como faço pra entrar em contato com algum profissional da area no meu estado que é mato grosso do sul.Pois ate hoje so achei profissionais que nao entendem nada e so querem o lucro, não conseguem resolver ou amenisar meus problemas de dores constantes.
Ulda, você pode acessar o site do Conselho Federal de Odontologia e usar a ferramenta de busca de profissionais em sua região. Nos filtros, é só você limitar a pesquisa aos profissionais da área de DTM e dor orofacial.
Atenciosamente,
Marcelo Matos
[...] Patologia e disfunção da ATM: o que esperar dos profissionais da área? [...]
[...] Em 2009, eu publiquei um artigo na Cranio -The Journal of Craniomandibular Pactice com o título Current Diagnosis of TMJ pathology (Diagnóstico atual das patologias da ATM) que é uma revisão do que se sabe de diagnóstico das condições patológicas da ATM, que é o ponto de partida para estabelecer um tratamento corretivo da disfunção e não apenas paliativo da dor. Isso já é realidade. Se por acaso você se identifica com a situação abordada nessa postagem, sugiro a leitura do seguinte texto: Patologia e disfunção da ATM: o que esperar dos profissionais da área? [...]