Muitas pessoas que possuem algum Distúrbio na ATM (DTM) relatam algum tipo de problema nos ouvidos e o contrário também é verdadeiro, muitas pessoas com perda de audição ou mesmo dor no ouvido, a chamada otalgia, são portadores de DTM. Entretanto o que se sabe dessa relação entre ouvido e aparelho mastigatório?
Desde a década de 1930, quando o Dr. Costen, um médico otorrinolaringologista, publicou um trabalho relacionando problemas auditivos com a ATM e os dentes, que muitos pesquisadores passaram a estudar a relação entre estes dois sistemas (o mastigatório e o auditivo). Entretanto, embora saibamos hoje muito mais do que na época de Costen, muita coisa sobre esse tema permance desconhecida.
Felizmente alguns relatos de casos têm sido publicados de modo a lançar algumas luzes sobre o tema. Recentemente, co-orientei o trabalho de conclusão de curso da, agora Cirurgiã-Dentista, Daniele Alcântara no qual, pela primeira vez, foi possível relacionar diretamente e de forma mensurativa, problemas auditivos com os ciclos mastigatórios. O trabalho obteve a nota máxima e chamou muita atenção dos professores e especialista da área.
O trabalho foi intitulado de: “Hipoacusia relacionada à patologia da ATM – relato de caso clínico.” que, embora seja um estudo de caso, abriu as portas para uma linha de pesquisa, que de outra forma não seria imaginada e que será desenvolvida pela disciplina de Estomatologia da Faculdade de Odontologia da EBMSP.
Trata-se de um caso onde se pôde detectar uma lesão articular de origem infeciosa que alterou os ciclos mastigatórios e, que ao ser tratada permitiu a correção funcional da mastigação. No decorrer do tratamento, o paciente apresentou recidivas da infecção, fenômeno que novamente produziu alterações funcionais na mastigação e que foi prontamente corrigido. O interessante do caso é que o paciente, em um certo momento, relatou melhora da audição, fato que chamou minha atenção e me levou a buscar os exames audiométricos que o mesmo já possuia e que fazia rotineiramente como parte do check up da empresa onde o mesmo trabalha. Qual não foi minha supresa ao perceber que em cada momento do tratamento que a análise computadorizada dos ciclos mastigatórios mostrava uma melhora funcional, a audiometria também apresentava uma melhora e quando havia uma piora, principalmente na época da recidiva, também havia uma piora da capacidade auditiva! Antes que alguém pense que possa ter sido coincidência, é preciso explicar que foram 7 audiometrias e análises de ciclo mastigatórios no decorrer de 2 anos! Seria coincidência demais…
Bom, não se pode concluir muita coisa por ser apenas um único caso clínico, mas ficou bem claro que um problema na ATM pode interferir na capacidade auditiva e que o tratamento da ATM pode produzir uma melhora. Entretanto é sempre bom lembrar que uma avalição de patologia da ATM em um paciente com sintomas auditivos precisa ser realizada em conjunto com um bom otorrinolaringologista ou um otoneurologista, para que haja um diagnóstico diferencial que seja o mais preciso possível.
Fiquem espertos!





Oi Dr Marcelo,gostaria de saber mais sobre o caso clínico.Existe essa possibilidade?Agradeço desde já.
Olá Roberta!
Existe sim essa possibilidade, mas é difícil definir a probabilidade. Existem vários estudos que correlacionam a incidência de um problema (perda de audição- hipoacúsia) à um distúrbio da ATM.
Eu em particular tenho alguns casos documentados, mas com base na minha experiência pessoal, eu jamais sugeriria, de primeira, que uma hipoacúsia seja oriunda de uma patologia da ATM. Em realidade, com o pouco que sabemos sobre a relação entre estes dois temas, é imperativo que o otorrino avalie o caso e tome as providências convencionais antes.
No atual momento, eu tenho visto mais casos em que o problema auditivo é discreto e não é a queixa principal do paciente.
Você é profissional de saúde?
Abraço,
Marcelo Matos
http://www.marcelomatos.com
Caro Dr. Marcelo,
Estou iniciando conhecimento sobre a origem da perda de minha audição do O.E., para as frequências 250 e 500 Hz, ocorrida há 10 dias, subitamente. Estava acreditando que pudesse ter ocorrido em um pré-sono noturno, no sofá com apoio da cabeça no braço deste, voltada a cabeça para o lado esquerdo e com a nuca voltada para trás. Acordei meio assustado com a cabeça meio enrijecida, numa noite de muito frio, parecia um torcicolo. Fui dormir na cama e no outro dia percebi uma espécie de pressão no ouvido sem notar perda de audição. Do último domingo para cá, percebi a perda de audição, fui a dois otorrinolaringologistas, realizei exames audiométricos e constatou a perda mencionada.
Tenho 48 anos e há um mês fiz um exame periódico do trabalho, onde o exame audiométrico foi satisfatório. Observação, não trabalho em local com ruídos sonoros.
Lendo este artigo também fiz relação com a ATM, pois fiquei com mais de um ano com mastigação incorreta , onde às vezes ocorria um deslocamento da articulação esquerda da mandíbula, com reflexos doloridos, provavelmente do tendão. Com minha dentista, fiz uma correção de altura dos dentes para a mastigação, há três meses, e não venho tendo mais problema.
Poderia um dos dois motivos, ATM ou Posicionamento errado do pescoço, provocado a lesão? Acredita que possa haver recuperação da audição?
Sei que os dados relatados não são suficientes, mas estou na “briga” de tentar a recuperação, se possível, e a prevenção para que não evolua, ou ocorra no O.D.. Amanhã estarei realizando um exame de ressonância magnética para uma checagem.
Seus comentários são bem vindos.
Abraço,
Gilberto
Olá Gilberto,
você perguntou:
Quanto ao posicionamento do pescoço eu tenho como lhe responder, talvez só um ototrrino ou um otoneurologista para dizer, outra opção é fazer uma pesquisa na PubMed e na Bireme para ver se acha alguma publicação científica sobre o tema.
Quanto ao problema estar relacionado à ATM, pode de fato acontecer. Tenho dois casos documentados com audiometrias aqui na clínica, um é esse que gerou o trabalho de conclusão de curso da dentista mencionado aqui neste tópico ou outro foibem pouco expressiva a melhora.
No entanto definir isso como uma relação de causa e feito é um tanto quanto complicado com base apenas em uns poucos casos publicados.
O mais importante primeiro é saber de seu otorrino descartar todas as possibilidades de ser uma doença própria do aparelho auditivo e quais as formas de tratamento que a medicina oferece, pois as perdas auditivas de origem neurológica tem pouca ou nenhum relação com o problema na ATM de modo que não adiantaria investir em um tratamento para esse propósito.
Entretanto, se há um problema na ATM e a perda auditiva não é neurossensorial, pode haver uma chance e talvez valha a pena tratá-lo, principalmente com técnicas reversíveis ( o que exclui ortodontia e cirurgia) como uma forma de tentativa e isso vai depender do diagnóstico diferencial do problema e do parecer do seu otorrino. Converse com ele.
Lembrando que o único caso bem documentado (que eu tenha conhecimento) de regressão da perda auditiva, relacionada a ATM, publicado em revista científica e apresentado em congressos da área, foi feito utilizando a abordagem neurofisiológica do professor Jorge Learreta da Argentina. Aqui no Brasil, as pessoas que utilizam essa essa abordagem estão listada na sessão de membros no blog do Ge-JAL.
Atenciosamente,
Marcelo Matos
Olá Dr. Marcelo
Gostaria de saber que método você usou para fazer o diagnóstico do processo infeccioso da ATM no artigo relatado acima, e qual foi o seu tratamento empregado?
Muito obrigado
Fábio Costa
Dr. Fábio, se há bactéria o tratamento certamente irá envolver o uso de antibióticos, embora exista uma maneira específica de se fazer isso. Se estiver na fase aguda ou conter supuração uma artrocentese poderá ser realizada também.
Quanto ao diagnóstico, o mesmo pode ser realizado por meio de ressonância + exame de sangue + provas funcionais + contraprovas de acompanhamento terapêutico, ou seja, da mesma forma que fazem os médicos.
Um opção direta seria uma reação do tipo PCR diretamente em amostras do tecido articular, mas biopsiar uma ATM para fins de diagnóstico pode trazer mais transtornos que benefício.
No workshop, para o qual lhe convidei em outro tópico,, será apresentado vários casos de infecção, inclusive com regeneração da estrutura condilar documentados por exames de imagem.
Atenciosamente,
Marcelo Matos
olá, Dr Marcelo. Eu tambem estou fazendo um trabalho de conclusãode curso sobre o tema de perda audtiva relacionada a problema na atm e gostaria de saber se tem como ter acesso ao trabalho da sua aluna. Obrigada!!
Olá Renata
O trabalho ainda não está disponível ao publico pois ainda não mandamos para publicação.
Atenciosamente,
Marcelo Matos